Angústia

Angústia sem motivo aparente

“Mas o que aconteceu?” A resposta honesta, às vezes, é: nada. O trabalho vai, a casa está de pé, as relações funcionam. E ainda assim há uma pressão por dentro, uma dificuldade de descansar de verdade, a impressão de algo pendente que não se consegue localizar.

Quando a angústia tem motivo, ela é ruim, mas legível. Quando não tem, chega com um peso a mais: a sensação de não ter direito a ela. A pessoa passa a procurar a causa como quem procura um objeto perdido em casa — e não encontra.

Vale desconfiar um pouco dessa procura. Não porque a causa não exista, mas porque a exigência de encontrá-la antes de qualquer outra coisa pode ser, ela mesma, parte do sufoco.

O medo tem um objeto. A angústia, com frequência, não tem — ou tem um que ainda não se mostrou. Isso não a torna menos real. Torna mais difícil de contar, porque contar pede um enredo.

Talvez a ordem esteja invertida: o sentimento vem antes, e a palavra chega depois, de lado, numa frase dita quase sem querer. É possível começar justamente pelo que ainda não tem forma.

Quando fizer sentido

É possível começar pelo que ainda não encontrou palavras.

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